O Censo Nacional da População em Situação de Rua avançou para uma etapa de testes antes da realização prevista para 2028. A prova-piloto foi conduzida pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em Belo Horizonte (MG), Florianópolis (SC), Goiânia (GO), Manaus (AM) e Salvador (BA), com o objetivo de avaliar instrumentos de coleta e procedimentos de campo.
A iniciativa pretende criar, pela primeira vez, uma base estatística nacional, padronizada e comparável sobre pessoas em situação de rua. A falta de um levantamento específico com abrangência brasileira dificulta a identificação do tamanho e das características desse grupo, além de limitar o planejamento de políticas públicas de moradia, acolhimento, saúde, assistência social, documentação, educação, trabalho e segurança alimentar.
As informações sobre a etapa foram divulgadas em 16 de setembro de 2026 pelo Ministério da Igualdade Racial, que acompanhou a operação. A fase de testes ocorreu entre 31 de agosto e 4 de setembro. Em Goiânia, as equipes percorreram diferentes áreas da cidade, inclusive durante a noite, para verificar a cobertura territorial e as formas de abordagem.
Levantamento nacional deve ser realizado em 2028
O futuro censo deverá reunir informações demográficas e socioeconômicas da população em situação de rua. A proposta também considera o uso de fontes como o Cadastro Único e o Censo SUAS, de modo a ampliar a compreensão sobre as condições de vida e o acesso dessa população aos serviços públicos.
A construção de uma metodologia nacional é relevante porque pessoas em situação de rua não formam um grupo homogêneo. As trajetórias de vida, os vínculos familiares, as necessidades de saúde, as experiências de trabalho e as formas de acesso à assistência podem variar entre cidades e regiões. Um padrão comum de coleta pode permitir comparações mais consistentes e apoiar a definição de prioridades pelas diferentes esferas de governo.
O cronograma informado ainda trata 2028 como previsão para a realização do levantamento nacional. Antes disso, a prova-piloto permite identificar dificuldades práticas, ajustar questionários e avaliar como as equipes conseguem alcançar diferentes territórios. Os testes também ajudam a observar se os procedimentos são adequados para uma população que pode circular pela cidade e utilizar espaços diversos para dormir, permanecer ou buscar atendimento.
Prova-piloto testa coleta em diferentes territórios
Em Goiânia, além do trabalho em horários distintos, o IBGE avaliou a aplicação de questionário em Libras. Segundo o IBGE, o teste amplia a atenção à acessibilidade durante a coleta e considera a necessidade de estabelecer formas de comunicação compatíveis com diferentes perfis da população entrevistada.
A presença de cinco capitais na operação também permite testar a metodologia em contextos urbanos distintos. Belo Horizonte, Florianópolis, Goiânia, Manaus e Salvador apresentam diferenças territoriais, climáticas, populacionais e na organização dos serviços públicos. A comparação entre esses cenários pode contribuir para aperfeiçoar a cobertura do levantamento antes de sua eventual expansão para todo o país.
O trabalho de campo exige abordagem cuidadosa, tanto para localizar as pessoas quanto para garantir que a coleta respeite sua dignidade e privacidade. A operação precisa considerar áreas centrais, regiões de circulação, equipamentos de assistência e outros pontos identificados pelas equipes, sem reduzir a situação de rua a um único espaço ou horário.
Dados podem orientar políticas públicas e ações de inclusão
Dados reunidos pelo Observatório Brasileiro de Políticas Públicas com a População em Situação de Rua, da Universidade Federal de Minas Gerais (POLOS-UFMG), indicavam 365.809 pessoas em situação de rua registradas no país em dezembro de 2025. O número foi sistematizado e divulgado pelo Ministério da Igualdade Racial no contexto da prova-piloto, mas não substitui o levantamento nacional planejado pelo IBGE.
O mesmo recorte aponta que 70,58% das pessoas registradas eram negras, enquanto 28,40% eram brancas e 0,58% indígenas. A distribuição evidencia a dimensão racial da desigualdade associada à falta de moradia e reforça a necessidade de que políticas públicas considerem raça, acesso a direitos e condições concretas de sobrevivência.
Uma base nacional também pode apoiar o acompanhamento de políticas voltadas à documentação civil, à saúde, à assistência social, à moradia, à geração de renda e à alimentação. Com informações padronizadas, União, estados e municípios tendem a ter melhores condições para dimensionar demandas, distribuir recursos e avaliar se os serviços alcançam quem enfrenta as formas mais intensas de vulnerabilidade.
A prova-piloto não representa ainda o resultado do censo nacional. Ela é uma etapa de preparação para testar métodos e corrigir obstáculos antes da operação prevista para 2028. Ao colocar a população em situação de rua no centro de uma produção estatística específica, o processo pode contribuir para tornar mais visíveis pessoas que historicamente permanecem sub-representadas nas bases oficiais e nas decisões de políticas públicas.

